Treinamento de cão de busca e resgate

Autor: 
Julia Layton
Comandos comuns
  • Ache - iniciar uma busca por cheiro humano
  • Suba - escalar um obstáculo
  • Túnel - rastejar através de um túnel
  • Deixe - ignorar uma distração em particular
  • Mostre - levar o treinador de volta ao local de uma descoberta

Pode parecer que um cão obsessivamente focado em brincar não daria um bom cão para o trabalho. Mas para o trabalho de busca e resgate, esta é uma característica perfeita. Um cão que buscará uma bola de tênis por horas provavelmente andaria três metros de neve, subiria uma montanha e desceria uma barreira rochosa que sangraria suas patas para encontrá-la (e encontrar alguém para atirar o objeto para ele novamente). Para esse cão de busca e resgate, localizar a origem de um cheiro humano significa um jogo de "ache a bola". Esta é a base do treinamento de busca e resgate: associar o cheiro humano com alguma coisa que o cão deseja muito.

As principais tarefas de um cão de busca e resgate são localizar um cheiro humano ("ache") e efetivamente alertar seu treinador para a sua localização. O treinamento de busca e resgate garante que um cão pode completar essas tarefas em todas as condições, independentemente do clima ou de distrações. Dependendo da área de especialidade do cão, seu treinamento central também pode incluir o lembrar-localizar ("mostre-me"), no qual ele encontra uma pessoa, retorna ao seu treinador e então o leva de volta até a pessoa, ou a lealdade com a vítima, na qual o cão permanece com a pessoa e alerta seu treinador por meio de latidos.


Foto cedida Isle of Man Search and Rescue
Este cão está alertando seu treinador po meio de latidos. Ele permanecerá com a vítima até a chegada de ajuda.

A maioria dos cães de busca e resgate mora e treina com seus treinadores. São necessárias cerca de 600 horas de treinamento para um cão estar apto a atuar. Às vezes, associações de busca e resgate adotam animais de abrigos para cães com o propósito específico de treiná-los para busca e resgate: eles são treinados em uma instalação especial e depois formam uma equipe com um treinador. Wilma Melville, da Fundação Nacional de Cães de Busca para Desastre, visita os abrigos para cães procurando por animais com "uma grande vontade de buscar um brinquedo arremessado, juntamente com algumas características que podem afastar outras pessoas que desejam adotar cães de abrigos: ousadia e um grande impulso para caçar" [ref]. Os potenciais cães para busca e resgate também precisam ser obedientes e atentos, ter um temperamento amigável (eles vão trabalhar próximos de estranhos e outros cães em uma situação de busca) e ter um forte desejo de agradar. Obediência e concentração são cruciais. Um treinador deve poder controlar seu cão todo o tempo e em todas as situações. Mas um cão de busca e resgate que não seja capaz de agir por conta própria é inútil (cães farejadores trabalham sem coleira, portanto, o treinador nem sempre estará por perto para dar os comandos). O cão de busca ideal pode resolver problemas sozinho, mas sempre está atento ao seu treinador.

A abordagem geral para treinar um cão para busca e resgate não é diferente do treinamento de um cão para realizar qualquer outro tipo de tarefa. O primeiro passo é descobrir por qual recompensa o cão trabalhará, e sempre imediatamente recompensá-lo quando ele faz a coisa certa. Os cães não fazem caridade: eles trabalham somente pela recompensa. Durante o treinamento, você associa essa recompensa com cada coisa que deseja que o cão faça (nesse caso, localizar cheiro humano e alertá-lo de uma maneira padrão). O treinamento se inicia com tarefas muito simples e progressivamente vai se tornando mais complexo à medida que o cão completa cada nível.

Exemplo: treinamento de avalanche
Treinar um cão para "achar" tem muito mais a ver com direcionar um cão do que ensiná-lo. Os cães têm uma inclinação natural para localizar cheiros e o treinamento de busca e resgate envolve deixar o cão saber qual cheiro você deseja que ele localize e onde esse cheiro pode estar. Sempre que os cães completam uma tarefa, eles ganham uma recompensa. Vamos supor que esse cão em particular trabalhe para brincar de cabo-de-guerra com uma meia fedorenta.

Para o treinamento de avalanche, o primeiro passo é simplesmente fazer o cão procurar sob a neve. O treinador cava um buraco na neve e uma segunda pessoa segura o cão enquanto o treinador faz um estardalhaço, correndo e pulando dentro do buraco. O cão observa o tempo todo, geralmente fazendo força para seguir o treinador. Então o assistente solta o cão e ele corre para encontrar o treinador. Quando ele o encontra, eles brincam de cabo-de-guerra. Isso estimula o interesse do cão em procurar pessoas.

O próximo passo é aumentar a quantidade de tempo que o assistente segura o cão. Isso aumenta o nível de memória e atenção exigido para encontrar o treinador. Primeiro, o assistente segura o cão por, digamos, cinco segundos. O cão encontra o treinador e brinca de cabo-de-guerra. Daí o assistente segura o cão por 10 segundos, depois um minuto, depois cinco minutos e assim por diante. Sempre que o cão encontra o treinador (o que é muito fácil porque ele está observando o treinador se esconder no mesmo buraco sempre) ele ganha o seu cabo-de-guerra.

A essa altura, o cão está totalmente envolvido com o jogo, então o treinador acrescenta uma complicação: um assistente cobre o treinador com alguns centímetros de neve. Dessa vez, quando o cão corre para encontrar o treinador, ele não pode vê-lo, mas pode sentir o seu cheiro. Assim ele começa a cavar. Quando o cão o encontra, ele encontra a sua meia fedorenta. Dessa forma, o cão descobre que as pessoas podem estar sob a neve e que o cheiro humano que emana da neve significa que se ele cavar naquele local, uma pessoa aparecerá para brincar com ele. Depois, o treinador e o assistente trocam de lugar: o treinador segura o cão enquanto o assistente se esconde sob a neve. Nesse estágio, o jogo está bem estabelecido e o cão sabe o que precisa fazer para obter sua recompensa.


Foto cedida Busca e Resgate 911BC K9
Exercício de treinamento em avalanche

Finalmente, as distrações são acrescidas ao jogo. O cão começa a jogar o jogo do "ache" com pessoas e cães se movimentando ao redor da área, juntamente com o equipamento de busca em avalanche, como mastros e pás, espalhados pela neve. Em uma busca real em avalanche, as distrações estão em toda parte e o cão deve ser capaz de se concentrar na busca, apesar do caos ao seu redor.

Depois que o cão compreende o jogo do "ache", treiná-lo para alertar sobre a descoberta é muito fácil. Geralmente os cães têm um instinto de alerta natural que os treinadores somente reforçam ou encorajam. No caso de descobertas em avalanche, normalmente os cães cavam na área onde detectam cheiro humano. Se uma recompensa é dada imediatamente após uma descoberta correta (o que significa que o cão está cavando no lugar certo), o cão continuará a alertar dessa maneira.

Um cão de busca e resgate pronto para atuar em campo pode se concentrar na tarefa atual haja o que houver (se o seu treinador o estiver comandando). O cão mantém a vigilância e a dedicação à busca sob qualquer condição climática e percorre terrenos traiçoeiros sem perder a confiança.


Foto cedida Fundação de Cães de Busca
Um cão de busca e resgate tem a confiança para realizar tarefas que não fazem parte de seu instinto natural

Um cão de busca e resgate andará sobre uma ponte de corda, se for necessário, abaixando o seu centro de gravidade para minimizar a oscilação. O cão ignorará um sanduíche colocado no meio de arbustos e conterá o impulso de cheirar outro cão de busca e resgate se ele estiver cumprindo um comando "ache". Esse nível de concentração não tem nada a ver com levar o trabalho a sério, mas sim com levar a brincadeira a sério. Seja um exercício de treinamento ou uma busca real, tudo é um jogo para o cão.

Treinamento do treinador
Em média, um treinador de busca e resgate leva cerca de mil horas para estar apto a atuar em campo. Ele aprende a treinar adequadamente um cão para localizar e alertar e recebe treinamento em navegação terrestre, padrões climáticos, comunicação via rádio, habilidades com mapas e bússola, sobrevivência em áreas amplas e desabitadas e procedimentos de primeiros socorros avançados, incluindo o CPR (ressuscitação cardiopulmonar).

Hannah Harris e seu Pastor Alemão, Grace, treinaram busca e resgate em Maryland. Eles passaram 48 horas por mês treinando. Harris observa o nível de multitarefa exigido para um treinador vasculhar seu setor:

    É extremamente importante que você vasculhe completamente o seu próprio setor e que você sempre saiba onde está no caso do seu cão o alertar... mas não descobrir algo. Uma área pode ser identificada para buscas adicionais se várias equipes alertarem em direção a um único local, mesmo que nada tenha sido descoberto. Saber exatamente onde você está parece simples, mas nossa equipe treina em locais diferentes semanalmente, assim não conseguimos conhecer a área muito bem e precisamos contar com nossos mapas topográficos. Eu tenho um bom senso de direção que me ajuda nas buscas em áreas selvagens, mas foi difícil para mim deixar isso de lado e confiar em minha bússola. O seu mapa e a sua bússola são mais confiáveis que o seu instinto, particularmente quando se trata de navegação noturna. À noite, as condições de busca são melhores para os cães devido à maneira como o ar se move, mas é muito difícil manter seu ritmo de caminhada, observar o seu cão com uma lanterna, controlar a sua posição no mapa e a direção para a qual você está se movendo. A maioria das buscas reais tem uma equipe de cães e um guia para ajudar com a navegação, mas o seu guia pode ou não ser confiável e você deve ser capaz de fazer isso sozinho para se qualificar para uma operação de busca.