Um dia na vida de um caçador de recompensas

A caça à recompensa

Os criminosos não fogem da lei com o objetivo de serem pegos. Pelo fato de os fugitivos não se esconderem em lugares fáceis, os caçadores de recompensa têm que ter muitos recursos. Eles precisam pesquisar muito antes de tomar qualquer atitude. Normalmente, começam pesquisando numa base de dados de endereços, números de telefone, números de placas e números de seguro social para encontrar o provável último paradeiro do fugitivo.

Uma vez que estão nas ruas, os caçadores de recompensa andam pelos endereços ou locais freqüentados pelo fugitivo. Eles podem pesquisar por meio da correspondência da pessoa, rastrear conversas telefônicas ou falar com pessoas da área, que possam tê-lo visto. Alguns caçadores de recompensa usam aparelhos de espionagem, como câmeras de vídeo nas placas de saída e óculos de visão noturna, para perseguir fugitivos.

Muitos caçadores de recompensa usam revólveres, bastões ou outras armas, mas a arma mais poderosa que um caçador de recompensa pode ter é o elemento surpresa, que geralmente significa aparecer na porta do fugitivo no meio da noite ou se fazer passar por um entregador da UPS ou medidor de gás para ter acesso à casa da pessoa.

Perseguir criminosos pode ser um negócio perigoso e a ameaça sempre está pesando sobre a cabeça de um caçador de recompensa. "É muito difícil para uma esposa dizer: 'tenha um bom dia no trabalho', ao marido quando ele está saindo de casa à meia-noite com um revólver. Existe o fator preocupação", diz Burton.

Mas a violência normalmente não tem um papel importante na equação, primeiro porque os criminosos mais violentos não saem da prisão pagando fiança e também porque a maioria deles não se mete em briga. Menos de 3 a 4% das pessoas que Burton "caça" resistem à prisão e a maioria delas não faz nada além de tentar correr e se esquivar.

A não ser que sua vida esteja em risco, um verdadeiro caçador de recompensa nunca matará um fugitivo. O motivo é parte integridade e parte finanças: eles têm de "trazê-los de volta vivos" para ganhar a recompensa. Os caçadores de recompensa não podem nem "bater" nos fugitivos, pois as prisões não os aceitarão com ossos quebrados ou grandes hematomas por causa da responsabilidade legal.

Caçadores de recompensa na TV

Cortesia Rede AandE de Televisão

Com a impressionante popularidade dos reality shows, não é de surpreender que as TVs estejam dando atenção ao assunto.

Duas redes de TV norte-americanas têm programas sobre os caçadores de recompensa. "Dog the Bounty Hunter" na AandE acompanha o Duane "Dog" Chapman e sua equipe de policiais enquanto eles "caçam" fugitivos pelas ruas pobres de Waikiki, no Havaí. Outro reality show sobre caçadores de recompensa, a série da HBO "Family Bonds", acompanha os Evangelista, família nova-iorquina de caçadores de recompensa.


Foto cedida Bob Burton
Bob Burton, caçador de recompensa
Bob Burton é um dos caçadores de recompensa mais respeitados do país. Ele está no ramo há 25 anos e durante esse período trouxe milhares de fugitivos de volta para a justiça. Só no ano passado seus agentes prenderam 20 mil pessoas.

Uma caçada típica para Burton começa com a ligação de um fiador. Ele então vai até o escritório do fiador e obtém uma procuração, o que lhe dá autoridade para prender o suspeito em nome do fiador. Burton também pega informações pessoais sobre o acusado, como o número da Seguro Social, data de nascimento e modelo do carro.

"Aí começamos a procurar pelo Judas", explica Burton. O Judas é aquela pessoa que foi desdenhada pelo acusado e agora está querendo entregar por onde ele anda. Ele pode ser um traficante de drogas, uma ex-namorada, a pessoa que deu a garantia do documento de fiança e agora se sente traída ou até mesmo a mãe ou o pai da pessoa.

Como qualquer predador eficiente, Burton precisa conhecer sua presa. Ele descobre onde o fugitivo gosta de ir, rastreia seus telefonemas e investiga suas faturas de cartão de crédito. Algumas vezes, Burton dá gorjetas de U$20 a U$300 para seguranças e porteiros de motéis o chamarem quando o fugitivo aparecer.


Foto cedida Bob Burton
Burton diz ter vantagem sobre a polícia por não abordar a pessoa que quer prender com um uniforme e distintivo de policial. "O fugitivo baixa sua guarda porque não está preocupado com o caçador de recompensa: o cara que está sentado perto dele no bar, quieto, chamando reforços", diz ele.

Escorar um fugitivo pode ser um processo dolorosamente longo. Burton e sua equipe podem esperar durante horas ou até mesmo dias num local. Uma vez encontrado o fugitivo, sua prisão pode acontecer de várias formas. "Quando vamos pegar uma garota de 25 anos que passou um cheque sem fundos, não a abordamos de forma agressiva. Apenas dizemos: 'querida, venha conosco. Não queremos colocar algemas em você' ", diz Burton.

Do outro lado estão criminosos mais durões, que resistem à prisão. Algumas vezes, Burton e sua equipe tentam distrair o fugitivo - por exemplo, travando a fechadura de seu carro com papel para que ele tenha que ficar mexendo ali por alguns minutos. Em outros casos, eles têm que arrombar uma porta e levar a pessoa sob custódia.

Burton então algema o suspeito, o coloca no banco de trás e o leva para uma prisão do município em que ele(a) foi originalmente preso(a). Burton já andou milhares de quilômetros com fugitivos pelo país.

Treinando para ser um caçador de recompensa

Um número cada vez maior de escolas está oferecendo certificados e até programas estudantis de caça à recompensa. A maioria dos grupos de caçadores de recompensa também patrocina seminários sobre o assunto, mas as exigências reais do trabalho (muitos recursos, inteligência e a perspicácia para pensar mais rápido e ser mais esperto do que o fugitivo) não se aprendem num livro. O melhor jeito de aprender é saindo nas ruas e fazendo o trabalho. Muitos caçadores de recompensa são ex-oficiais de polícia ou investigadores, mas não é necessário ter experiência em fazer cumprir a lei.

Homens e mulheres podem ser caçadores de recompensa. O segredo é conhecer as leis federais e estaduais e agir profissionalmente, diz Burton, porque você tem que lidar com juízes e outros oficiais regularmente. "Temos que ter uma sala de reuniões e de registros em mente", afirma ele.

Histórico da caça à recompensa
A caça à recompensa teve sua origem na Inglaterra, há centenas de anos. No século XIII, a fiança era uma pessoa, e não uma quantia. Uma pessoa ficava responsável pela guarda do acusado e, se ele não voltasse para enfrentar seu castigo, o responsável poderia ser enforcado em seu lugar.

Durante a época colonial, a América se baseou no sistema de fiança estabelecido pelo governo da Inglaterra. Em 1679, o Parlamento Britânico aprovou o Habeas Corpus Act, que pela primeira vez garantiu que uma pessoa acusada fosse solta da prisão mediante o pagamento de uma fiança (em dinheiro). Ele dizia:

... dentro de dois dias a parte deverá ser trazida à frente do Juiz Supremo ou do Juiz ... deverá liberar o prisioneiro da cadeia, recebendo sua fiança com uma ou mais garantias, numa soma por ele ponderada, levando em conta o(s) tipo(s) do prisioneiro(s) e a natureza de seu crime, para que ele(s) apareça(m) na corte do Tribunal Superior, o termo que segue...
Esse direito foi inserido na Constituição dos EUA mais tarde. A oitava emenda da Constituição proibiu o estabelecimento de fianças excessivas e o Judiciary Act de 1789, que estabeleceu o sistema judicial da corte dos EUA, definiu os termos dos crimes afiançáveis.

A lei federal sobre fianças não foi modificada até o Bail Reform Act, de 1966, que permitia que o prisioneiro fosse solto com a fiança mais baixa possível para garantir seu retorno para o julgamento (embora o 1984 Bail Reform Act permitisse que as cortes mantivessem pessoas acusadas sem fiança se fossem consideradas muito perigosas para serem soltas).

O caçador de recompensa teve sua autoridade ampliada em 1873, com o caso da Suprema Corte dos EUA Taylor contra Taintor. Esse caso deu aos caçadores de recompensa autoridade para agir como agentes dos fiadores. Os caçadores de recompensa que estivessem atrás de um fugitivo poderiam "persegui-lo até outro Estado" e, caso fosse necessário, "arrombar e entrar em sua casa". Atualmente, cada estados tem suas próprias restrições quanto aos caçadores de recompensa, mas a maioria deles dá aos caçadores de recompensa locais a liberdade de perseguir e prender fugitivos dentro e além de suas fronteiras.

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