A má reputação da fofoca

Autor: 
Tracy V. Wilson

A fofoqueiro não tem boa reputação e quase todas as principais religiões do mundo alertam contra a fofoca e o ato de espalhar boatos. Por exemplo, o livro de Levítico, encontrado na Bíblia cristã e na Torá judaica, afirma: "Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo" [ref - em inglês]. A fofoca também é contrária ao conceito de palavra correta, que faz parte do caminho óctuplo (em inglês) para o esclarecimento, que é a base do Budismo. Muitos textos islâmicos proíbem tanto contar como escutar fofocas [ref - em inglês].

Em geral, o mundo laico também condena a fofoca. Os pais, os livros de auto-ajuda e os conselheiros ensinam que as pessoas devem evitar a fofoca. Livros sobre gerenciamento empresarial apresentam a fofoca como uma ameaça à saúde e à estabilidade de uma organização porque ela diminui a moral e desperdiça o tempo dos funcionários.

Fofoca no trabalho

Algumas empresas permitem comunicadores instantâneos - instant messaging - no ambiente de trabalho (como o MSN Messenger e o ICQ, por exemplo). Essa é uma ferramenta de comunicação muito eficaz quando o funcionário sabe utilizá-la de maneira consciente, separando a hora do trabalho da hora de conversar com amigos. Infelizmente, por muitos, acaba sendo utilizada como um facilitador de fofocas.

Pesquisadores aconselham que as empresas utilizem de algum tipo de controle sobre essa ferramenta para evitar o uso abusivo no horário de trabalho, vírus em seus computadores e o vazamento de informações confidenciais da empresa.

Além disso, a fofoca no ambiente de trabalho pode causar danos e aborrecimentos à pessoas que são alvos dos comentários.

Nos Estados Unidos, a organização sem fins lucrativos Words Can Heal (em inglês) alerta que a fofoca é perigosa e prejudicial e oferece ajuda sobre como parar de fofocar.

Mulher fofocando, ao telefone, sobre o chulé do namorado

Apesar de os adultos passarem até dois terços de seu tempo de conversações fofocando, somente 5% desse período é gasto com fofocas negativas

Mas a maior parte das pessoas fofoca mesmo - e apesar da má fama da fofoca, nem sempre se trata de espalhar mentiras ou difamar. Pesquisas indicam que os adultos - independentemente de serem homens ou mulheres - gastam entre um quinto e dois terços do tempo de que dispõem para conversar fofocando, mas que somente 5% desse tempo é gasto com fofocas negativas.

Tratado geral sobre a fofoca

O conhecido psiquiatra José Angelo Gaiarsa, dono de opiniões polêmicas e que durante alguns anos trabalhou em um programa de variedades em uma conhecida rede de televisão, em seu livro "Tratado Geral Sobre a Fofoca" fala a respeito da fofoca de maneira séria e bastante sugestiva.

Gaiarsa afirma que somente 20% das informações trocadas entre as pessoas são realmente úteis e que a fofoca está diretamente ligada a insatisfação que as pessoas sentem com relação às suas vidas. Ele argumenta também que nós estamos sempre envolvidos em fofoca, seja como vítimas, seja como agentes. Veja um trecho (extraído do capítulo 3 - "Uma Hipótese Chamada Fofoca"):

"Todos nós nós sentimos VÍTIMAS da fofoca - quando ela chega a nós. Mas ninguém se sente AGENTE da fofoca. Estranho, não?
É que fofoca MESMO só "ELE" faz...
- Eu?
- NUNCA!!!"

Nesse livro tão contundente, ele também dá algumas dicas bem humoradas de como se proteger das fofocas.

De modo geral, os pesquisadores começaram a se interessar pela fofoca há pouco tempo. A fofoca é tão corriqueira que algumas pessoas fofocam sem se dar conta. Isso fez com que alguns pesquisadores a considerassem algo a ser ignorado em vez de estudado. Em outras palavras, lingüistas e cientistas sociais viam a fofoca como um bate-papo despropositado.

Chimpanzés se alisando
Imagem cortesia Mike Swope/MorgueFile
Alguns pesquisadores acreditam na teoria de que a fofoca funciona nas sociedades humanas da mesma forma como o coçar nas sociedades primatas

No entanto, quando os cientistas estudaram a fofoca, criaram teorias e conclusões bem interessantes. Alguns pesquisadores acreditam que a fofoca começou como uma forma pela qual os primeiros humanos conheciam seus vizinhos para determinar em quem podiam confiar, o que a tornava uma ferramenta necessária para a sobrevivência. Robin Dunbar, autor de "Grooming, Gossip and the Evolution of Language", apresenta uma teoria segundo a qual a fofoca nas sociedades humanas tem o mesmo papel que o coçar nas sociedades primatas, porém com mais eficiência. Dunbar foi mais longe e afirmou que a linguagem evoluiu para que as pessoas pudessem fofocar e, assim, estabelecer e defender seus grupos sociais de forma mais eficaz.

A idéia de Dunbar pode parecer um pouco forçada, mas pesquisadores relatam que a fofoca tem muito em comum com o coçar, além do estereótipo de mulheres fofocando em um salão de beleza:

  • fofocar é gostoso. Muita gente fofoca só para se distrair ou para desabafar;
  • quando você fofoca com alguém, você e a pessoa com quem você está falando estão demonstrando confiança mútua. As pessoas que você escolhe para fofocar são pessoas que você acredita que não irão usar o que você está contando contra você;
  • a fofoca reforça os laços sociais. As pessoas com quem você fofoca passam a fazer parte de um grupo - os demais estão fora desse grupo.

Mentira x ética
Muita gente acha que mentir é errado. Esse é um dos motivos pelos quais tantas fofocas começam com "ouvi dizer" ou "me disseram". Atribuir uma declaração a outra pessoa tira da pessoa que está falando a responsabilidade pela veracidade do que se está falando. Mas, tecnicamente, isso não torna a fofoca algo ético.

A fofoca pode desempenhar papéis diferentes nas interações sociais. Ao fofocar, as pessoas:

  • se distraem
  • influenciam a opinião umas das outras
  • trocam informações importantes
  • apontam e reforçam regras sociais
  • aprendem com os erros dos outros

Na maior parte das vezes, as pessoas podem assimilar as mesmas informações sobre regras e padrões sociais pela observação. No entanto, observar o comportamento das pessoas leva mais tempo e exige mais esforço que a fofoca. Em outras palavras, a fofoca pode ajudar as pessoas a aprenderem como se comportar e como entender o funcionamento social de forma mais rápida e eficiente que a observação direta.

Contudo, isso não significa que todas as fofocas sejam boas. Muita gente faz fofocas maldosas pelo simples desejo de prejudicar os outros ou por um inexplicável prazer. Às vezes, o fazem por gostar do sentimento de superioridade, presunção, vingança ou de schadenfreude - palavra de origem alemã que significa satisfação obtida com a desgraça alheia. Tem gente que espalha fofocas negativas para aumentar seu próprio status social à custa dos outros.

Por tudo isso, é difícil apoiar a fofoca como uma ferramenta social necessária ou depreciá-la como um mal social desnecessário. A seguir, analisaremos essas questões complexas, usando alguns exemplos específicos.