Bertrand Russell e a filosofia política

Enquanto se dedicava à obra “Principia Mathemática”, o que lhe foi mentalmente desgastante, Bertrand Russell enfrentava também uma crise em seu casamento com Alys. Ao se dar conta de que não amava mais a esposa, ele se sentiu no dever moral de informá-la disso. O casal passou quase uma década de tormento na relação até que se separaram definitivamente em 1911. Durante esse período, Russell se apaixonou e desapaixonou-se diversas vezes. Uma de suas mais duradouras amantes foi Lady Ottoline Morrell, a exótica esposa de um amável e liberal membro do Parlamento britânico.

Em 1911, além da separação de Alys, outro acontecimento teria forte impacto sobre Russell. Um jovem herdeiro da mais poderosa família industrial do Império Austro-Húngaro apareceu nos aposentos de Russell em Cambridge disposto a discutir suas ideias lógicas sobre os fundamentos da matemática. Seu nome era Ludwig Wittgenstein e Russell ficou impressionado com aquele impetuoso jovem de empertigadas maneiras vienenses. Wittgenstein passou a visitar Russell e bombardeá-lo com questões desde se devia cometer suicídio ou tornar-se um filósofo. Russell havia decidido guiá-lo pacientemente em sua busca da lógica como se fosse o Santo Graal. Ele foi o mentor do jovem filósofo que fundou seus pensamentos na lógica e na linguagem e que, anos à frente, discordaria radicalmente de Russell.

Desde o início de sua busca pelo conhecimento, Russell almejava reunir filosofia e ciência, como havia sido feito na Grécia antiga. Mas ao passar dos 40 anos e devido aos ataques de Wittgenstein, Russell decidiu que a filosofia se tornara difícil demais para ele. Abandonou a ideia de construir uma filosofia original abrangente e procurou desenvolver uma filosofia popular. A primeira obra dessa nova fase foi “Os Problemas da Filosofia”, publicada em 1912. Passou também a ser um ativista político o que lhe custou o emprego em Cambridge, após se envolver em protestos pacifistas. Em 1918, passou seis meses preso em Brixton e nesse período de solidão escreveu o livro “Análise da Mente”. Ao sair da prisão manteve seu ativismo, seus princípios liberais e seus casos amorosos, entre eles um com Vivien Eliot, a mentalmente instável esposa do poeta T.S.Eliot. Em 1919, conheceu e casou-se com a jovem e independente Dora Black, de 25 anos. Viajaram para a União Soviética para verem de perto o resultado da revolução bolchevique. Russell não só não se impressionou com Lênin, com quem teve uma audiência particular, como também ficou horrorizado com os efeitos da revolução, o que resultou na obra “Teoria e Prática do Bolchevismo”, uma crítica contundente ao que vira.    

Em 1933 Russell, com 63 anos de idade, já separado de Dora e recém-casado com sua assistente de pesquisa de 25 anos, mudou-se para os Estados Unidos. Lá escreveu “História da Filosofia Ocidental”, livro que se tornou um best-seller e é até hoje considerada uma das melhores obras sobre o assunto. Em 1944, ao retornar a Grã-Bretanha foi reconduzido à condição de fellow do Trinity College e considerado um “sábio nacional”.  Em 1950 recebeu o Prêmio Nobel de literatura, por ser um “apóstolo da humanidade e da livre expressão”, segundo a BBC. Em 1961 voltou a ser preso, com 89 anos de idade, em um protesto contra as armas nucleares. À medida que ficou mais velho sua militância se intensificou. Nos anos 60 foi um dos principais opositores à Guerra do Vietnã e um atuante pacifista. Russell morreu em 1970, com 97 anos de idade.