Informações básicas sobre autodefesa verbal


A autodefesa verbal possui três componentes:
  • entender o que realmente está acontecendo;
  • escutar em vez de chegar a conclusões precipitadas;
  • saber como responder.

Entender o que realmente está acontecendo
Antes de tudo, você tem que educar a sua amídala. Quando alguém o aborda com uma linguagem hostil, a sua amídala costuma dizer: "PERIGO! ALERTA VERMELHO!". Você tem de ser capaz de modificar os critérios que a sua amídala tem para definir uma ameaça.

Suponha que uma criança de dois anos corra em sua direção gritando "VOCÊ É MALVADO! Eu não GOSTO de você!" e comece a dar socos nos seus joelhos com seus punhos minúsculos. A sua amídala não presta a menor atenção. Você sabe que a criança não é nenhuma ameaça. Você entende o que causa tais episódios e sabe que não se entra em uma briga com uma criança. A chave aqui é que você entende o que está acontecendo e isto o permite ser racional.

Com agressores verbais, o problema é que normalmente não entendemos o que está acontecendo. A idéia dominante sobre tais pessoas é que a sua meta em atacar você verbalmente é prejudicá-lo, causar-lhe dor, dano - e isto com certeza é percebido pela amídala como perigo. Contudo, a idéia está toda errada. 

Qualquer pessoa pode atacar verbalmente de vez em quando. Você está muito cansado, teve um dia horrível, está ficando doente, alguém diz algumas palavras inócuas para você e você perde a cabeça. Mas agressores verbais crônicos - aqueles que deixam todo o mundo à sua volta tumultuado o tempo todo, aqueles que as pessoas preferem correr ao banheiro para evitar encontrar, esses são diferentes. Claro, eles poderiam ser sádicos psicóticos que querem te bater, mas isto não é provável (e se eles forem, haverá outras pistas, como o fato de que eles estão com os olhos vermelhos de raiva e prontos para te agredir). Quase sempre, os agressores verbais crônicos se comportam dessa maneira por uma destas razões:

  1. uma pequena porcentagem é simplesmente de pessoas bobas. Elas são ignorantes, não sabem nenhum outro modo de se comunicar com outros seres humanos. Tudo que elas precisam é educação;
  2. os demais são pessoas desesperadas por atenção, que pensam que a conseguirão com linguagem hostil.

Em ambos os casos, uma vez que você entende o que realmente está acontecendo, a sua reação com essas pessoas não será mais alerta, mas de compaixão. Como "Coitadinho, desesperado para se comunicar e isto é o melhor que ele/ela pode fazer". Ou "Coitadinho, desesperado por atenção e isto e isto é o melhor ele/ela pode fazer". Você pode não gostar do atacante e achar que seu comportamento é inaceitável, mas você não terá nenhum interesse em discutir.

Brasileiro xinga brasileiro
Brasileiro xinga brasileiro de negro, preto, pobre e outras palavras discriminatórias para se defender.

Escute em vez de chegar a conclusões precipitadas
Há muito tempo, o psicólogo George Miller disse algo tão importante que deveria ser chamada Lei de Miller. Ele disse "para entender o que outra pessoa está dizendo, você deve presumir que é verdade e tentar descobrir como essa verdade funciona", ou seja, quando alguém diz: "Ei! A minha torradeira fala comigo!", a sua resposta natural é um "Oh? O que a sua torradeira diz?" seguido de muita atenção para escutar a resposta. Você está aceitando como verdadeira a afirmação que a torradeira da pessoa conversa com ele ou ela. Você está presumindo temporariamente que é verdade e logo você está escutando cuidadosamente para descobrir como a afirmação pode ser verdade.

Mas a maioria de nós usa o que podia ser chamado Lei de Miller invertida. Ouvimos alguém dizer algo e reagimos negativamente; imediatamente assumimos que a declaração é falsa; deixamos de escutar porque estamos ocupados dizendo a nós mesmos o que está errado com a pessoa que explica por que eles diriam algo inaceitável para nós. Chegamos a conclusões precipitadas. Pensamos coisas como:

  • "ele só está dizendo isto porque ele é sem educação/louco/bêbado/velho/sádico/esnobe";
  • "ela só está dizendo isto porque.... ela é cabeça-oca/maldosa/drogada/totalmente confusa/quer me encher o saco";
  • "eles só estão dizendo isto porque... sou baixinho/pessoas como eles não tem modos/eu não tenho dinheiro pra comprar um terno decente/eles não gostam de mim".
Quando fazemos isto, paramos de escutar. Você não pode escutar alguém falando e a sua própria conversa ao mesmo tempo. Isso é neurofisiologicamente impossível. E o que acontece depois? Na maioria das vezes, acontece uma briga. Como esta:
    X: "Ei! A minha torradeira fala comigo!"
    VOCÊ: "Olhe, não tenho tempo pra esse tipo de besteira! Tenho coisas para fazer!"
    X: "Então o MEU trabalho não é tão importante quanto o seu?"
    VOCÊ: "Eu não disse isso."
    X: "Ah, sim, você disse!"
    VOCÊ: "Não disse! Eu só disse..."
E assim por diante; as coisas só tendem a piorar.

Algumas pessoas dizem que não têm tempo para escutar, que são muito ocupadas, mas seguramente passam muito mais tempo resolvendo os problemas resultantes da falta de escutar as pessoas. Dê à quem fala a sua completa atenção até que entenda realmente o que está sendo dito e por que. Mesmo se quem fala é uma criança. Especialmente se é uma criança. 

Saber como responder
A nossa cultura ensina três maneiras de se responder a um ataque verbal:

  1. atacar também - "Como você OUSA me dizer isto!"
  2. suplicar - "Não posso ACREDITAR que você vai começar com isto de novo quando você SABE quanto trabalho eu tenho de fazer hoje!"
  3. debater - "Há três razões pelas quais o que você diz é ridículo. Primeiro..."
As três maneiras são um erro estratégico, pois todas recompensam o atacante fornecendo a sua atenção imediata, muitas vezes com uma reação emocional que aumenta a intensidade daquela atenção. O que você faz quando usa essas respostas tradicionais é estimular o agressor a fazê-lo novamente. Afinal de contas, funcionou.

O que você precisa é de uma resposta que avise ao agressor que você não será a vítima à disposição. Abandonar a cena não adianta; se você fugir, deixará claro para os atacantes que eles "irritaram" - eles ficarão ansiosos para tentar novamente. Ignorar os agressores não adianta também. Em nossa cultura, o silêncio é punição: somente outro tipo de contra-ataque. Como sair dizendo: "Você me irritou. Você sabe como me estressar".

Brasileiro se defende
Brasileiro se defende dos xingamentos com palavras iguais ou piores das que ouviu: preto, pobre, babaca, idiota etc.
 

O sistema de autodefesa verbal inclui uma grande quantidade de técnicas que que não cabem neste artigo. Mas veremos dois exemplos aqui. A sua meta é responder à linguagem hostil de uma forma que não o coloca como uma vítima, não recompensa o agressor, não necessita que você sacrifique os seus princípios ou dignidade e não causa nenhuma perda em ambos os lados. Por exemplo...