Aristóteles: o Liceu e a Metafísica

Aristóteles foi muito bem recebido em Aterneus. Hérmias, mercenário grego que governava a região, queria transformar a cidade em um centro de cultura grega e conseguiu que Aristóteles o ajudasse nisso. Ao contrário do idealismo de Platão, Aristóteles tinha uma atitude muito pragmática na política.  

Nessa época, já na meia-idade e agindo como um professor reservado, ele se apaixonou e casou com Pítia, uma mulher bem mais jovem. Seu interesse pelo naturalismo o fez se aprofundar num trabalho de classificação de plantas e animais. Convencido de que a natureza nada faz em vão, ele acreditava que cada traço específico de um animal existia para cumprir uma determinada função.

Em 343 a.C., Aristóteles era considerado um líder intelectual em toda a Grécia e Filipe da Macedônia havia conquistado a região e unido pela primeira vez as cidades-estados gregas. O filósofo foi então convidado para ser tutor do jovem e indomável Alexandre, filho de Filipe. Com 42 anos de idade e dono de um dos espíritos mais brilhantes que o mundo já conheceu, Aristóteles aceitou o desafio de educar um jovem e voluntarioso aluno de 13 anos, que se tornaria um dos maiores megalomaníacos que o mundo já conheceu. Durante três anos ele foi o tutor de Alexandre, que aos 16 anos de idade assumiu o lugar do pai morto para se tornar Alexandre, o Grande, e iniciar seu projeto de reinar sobre todo o mundo conhecido naqueles tempos.

Sem a incumbência de ser o tutor de Alexandre e mais uma vez preterido para a direção da Academia, Aristóteles decidiu fundar uma nova escola em Atenas. O Liceu, como ficou conhecido, ensinava uma ampla gama de assuntos e parecia-se muita mais com uma universidade moderna do que a Academia. A opinião do filósofo que era levada aos alunos e que depois estes espalharam pelo mundo era que a razão é a mais elevada faculdade do homem.

Ao desenvolver a lógica, que ele chamava de “analitika”, pois era explicitadora, ele fundou um pensamento que perdurou por muitos séculos. Mas seus últimos anos de vida foram tempestuosos. Sua mulher Pítia morreu e ele casou-se com sua criada Herpilis com quem teve seu primeiro filho, Nicômaco. Com a morte de Alexandre, o Grande, os atenienses iniciaram uma onda de antimacedonismo e Aristóteles, que havia nascido na Macedônia e tinha sido tutor do mais importante dos macedônios, foi vítima dela. Em 323 a.C., ele teve de abandonar sua escola e refugiar-se na cidade de Cálcis, onde morreu um ano depois. Parece que a amargura por ter perdido o Liceu o fez considerar que aquela não era mais uma vida que valia a pena ser vivida.

A herança aristotélica

As obras originalmente sem títulos de Aristóteles sobre ontologia e a natureza última das coisas foram reunidas sob o nome de “Metafísica”. Quem fez essa organização foi Andrônico de Rodes, último líder do Liceu. É na “Metafísica” que Aristóteles atribui ao ser humano um desejo que nos impele na direção do conhecimento. Na era romana, Aristóteles foi reconhecido como o maior lógico e a lógica aristotélica foi adotada por pensadores como Tomás de Aquino e tornou-se parte do cânone cristão. Mas não foi apenas na cultura ocidental que sua influência foi decisiva. A filosofia aristotélica foi também desenvolvida por dois importantes filósofos islâmicos: Avicena e Averróis. Os trabalhos de Aristóteles como hoje são conhecidos somente foram reunidos cerca de três séculos após sua morte.