A música jovem nos anos 70

Autor: 
Sílvio Anaz

A música popular foi o que melhor retratou a diversidade e as transformações da cultura jovem nos anos 70. A década que começou com o fim dos Beatles teve uma fase megalomaníaca do rock. O heavy metal e o progressivo eram as vertentes em alta e suas canções estavam cada vez mais sofisticadas, com virtuosismos que flertavam com a música erudita. Bandas, como Led Zeppelin, Pink Floyd e Genesis, faziam concertos grandiosos, em mega turnês.

Pink Floyd
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O álbum "The Dark Side of the Moon", do Pink Floyd, foi um dos grandes sucessos de vendagem e execução da primeira metade dos anos 70

Enquanto isso, um novo estilo de rock, andrógino, teatral e cheio de glamour surgia nas canções e performances de David Bowie, T-Rex e Roxy Music. Separados, os ex-Beatles começavam novas bem-sucedidas carreiras. Recuperados da morte de Brian Jones e dos incidentes de Altamont, os Rolling Stones lançavam alguns de seus melhores álbuns com sua mistura de rock e rhythm’n’blues.

Marvin Gaye
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Marvin Gaye e outros expoentes da black
music influenciaram o pop dos anos 70

Fora do rock, a black music que emergiu nos anos 60 dava o tom da música pop, com sucessos românticos, dançantes, mas também carregados de protestos sociais, de Marvin Gaye, Sly & the Family Stone e James Brown. Outros artistas pop começaram a se destacar, misturando rocks e baladas, como Elton John, Peter Frampton e Rod Stewart.

No Brasil, um tipo de canção de protesto disfarçada, por conta da censura, tinha como expoente a obra de Chico Buarque. E o tropicalismo ainda fazia eco nas canções de Caetano Veloso e outros artistas. Mas o que liderava as paradas e as vendagens eram as canções românticas do “rei” Roberto Carlos e os sucessos da música brega, uma vertente da canção popular extremamente sentimental composta e interpretada por artistas bem populares, como Odair José, Nelson Ned e Valdick Soriano.

Roberto Carlos
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No Brasil, Roberto Carlos foi coroado como o "Rei" da
música popular com sua fase de canções românticas

Mas, na metade da década tudo mudou. No momento em que o Queen despontava como uma das maiores bandas do rock, os rumos da música jovem estavam mudando radicalmente. Cansados da filosofia hippie herdada dos anos 60, das canções “viajandonas” que não falavam de sua realidade e das posturas super pop stars das grandes bandas, parte da juventude nos EUA e no Reino Unido adotou o “faça você mesmo” como lema artístico e comportamental. Nascia o punk, com seu rock básico, acelerado e visceral e um visual soturno e agressivo, tendo como expoentes os Sex Pistols e os Ramones.

Punk magazine
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O surgimento do punk, retratado na publicação "Punk Magazine",
enterra um rock grandioso e faz o gênero renascer revigorado,
criativo e diversificado na segunda metade dos anos 70

Enquanto o punk chocava e causava uma ruptura, a música pop desaguava na disco music ou música de discoteca, baseada nos suingues da música negra e nos primeiros recursos da música eletrônica. A era da discoteca foi repleta de canções alto astral, feitas para dançar e descompromissadas, como mostram os sucessos de Donna Summer, Abba e KC & The Sunshine Band.

Studio 54
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O filme "Studio 54" recria a atmosfera da mais famosa discoteca de Nova Iorque nos anos 70, freqüentada pelo artista multimídia Andy Warhol, pela vocalista Debbie Harry e pelo escritor Truman Capote, entre outras

O centro dessa nova subcultura jovem eram clubes noturnos com pistas de dança iluminadas por globos de espelhos e luzes estroboscópicas. Dançar sem parar, o uso de drogas, o erotismo e o florescer de uma cultura gay faziam parte da atmosfera da era da disco music. Enquanto o punk rompeu com a contracultura hippie para ser agressivo e niilista, a “era da discoteca” se opunha ao idealismo e coletivismo dos anos 60 com uma proposta hedonística, descompromissada e individualista.

Dancin Days
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A novela "Dancin' Days" fez sucesso com a sua trama e com
uma trilha sonora que aproveitava a onda da disco music no Brasil

No Brasil, a onda da disco music se popularizou antes do movimento punk. Na segunda metade da década de 70, as discotecas brasileiras eram um dos principais centros de entretenimento. A febre da disco music se espalhou pelo país com os sucessos da novela “Dancin’ Days” da Rede Globo e o lançamento do filme “Os Embalos de Sábado à Noite”, com John Travolta. O fenômeno permitiu também o surgimento de uma versão brasileira da música de discoteca, com As Frenéticas, Lady Zu e Tim Maia. Uma versão mais popular e erotizada do gênero ficou por conta de artistas como Sidney Magal e Gretchen, que atualizaram o estilo brega para o ritmo da disco music.

Mas, mais do que a diversidade de gêneros que surgiram ou definharam nos anos 70, a marca dessa década foi a radical mudança de rumo que a música jovem deu.

1977, o começo do fim dos anos 70

1977 foi o ano em que Elvis Presley, o rei do rock, morreu. Foi também o do início do rap e da cultura hip-hop, do auge da onda da discoteca com o Studio 54 em Nova Iorque, do lançamento nos cinemas de “Os Embalos de Sábado à Noite” e da saga “Guerra nas Estrelas”. Foi o ano em que os Sex Pistols e o punk conquistaram o mundo. Foi também quando começou a surgir a new wave, a partir do punk nova-iorquino de Talking Heads e Blondie. Em 1977, a década de 70 chegou ao seu ápice e começou a anunciar o que estava por vir.