O AI-5 foi o principal instrumento “legal” para silenciar a oposição utilizado pela ditadura militar no Brasil. E ele foi pensado para ser genérico o suficiente para justificar a repressão governamental em diversas frentes.
De cara, foi utilizado para a cassação ou suspensão dos direitos políticos de parlamentares, governadores, prefeitos, juízes, intelectuais, professores, militares e outros cidadãos que haviam se manifestado contra o governo. Segundo o historiador Thomas Skidmore, apenas nos dois primeiros meses foram 441 cassações [fonte: Aventuras na Historia]. O uso do AI-5 com essa finalidade aconteceu em todo o período em que vigorou. Mesmo o general Ernesto Geisel, que o revogou e iniciou um processo de abertura política no país, o utilizou para silenciar alguns opositores e críticos.
![]() Agência Estado Quem contestasse o governo durante a vigência do AI-5 corria o risco de ficar preso, já que não poderia recorrer ao habeas corpus |
Nessa época um dos lemas do aparelho repressivo era de que “contra a pátria não há direitos”. O AI-5 não inaugurou a repressão política violenta na ditadura militar. Ela já tinha começado logo após o golpe de 64, mas ele deu uma autonomia maior para que órgãos como o Serviço Nacional de Informações (SNI), o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) e o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) exercessem a tortura e o assassinato daqueles que eram considerados subversivos.
Aparentemente a idéia do presidente Costa e Silva, após ceder à ala linha dura dos militares com o AI-5, era promover a elaboração de uma nova Constituição para o país baseada nas idéias do grupo mais liberal do governo. No entanto, uma isquemia cerebral em 1969 o afastou do governo e a junta militar que o substituiu manteve o conteúdo do AI-5 incorporado à autoritária Constituição de 1967, imposta pelo governo militar. Assim com os fundamentos legais para uma ditadura estabelecidos, além da atividade política, outros campos sofreram a repressão governamental, como as artes e a imprensa.
A partir da implantação do AI-5 e de sua incorporação à Constituição de 1967, a repressão imposta pela ditadura ampliou-se no campo cultural. A instituição da censura prévia limitou a circulação de idéias. Mas também acabou por estimular a criatividade de artistas e intelectuais. A Divisão de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal era o órgão responsável por verificar o conteúdo das músicas, filmes, programas televisivos, peças teatrais e outras manifestações culturais no país antes que elas chegassem ao público. Os jornais e revistas também estavam sujeitos ao crivo dos censores. A paranóica vigilância à veiculação de idéias subversivas ou que atentassem contra a moral vigente nas artes levou à censura de canções politizadas, como as de Chico Buarque de Holanda, mas também de sucessos da música brega, como “Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)”, de Odair José. Para driblar os censores, jornais alternativos como “O Pasquim” usavam, sem serem descobertos na maior parte das vezes, metáforas e humor negro para ironizar o regime. A combinação do AI-5 com a censura levou ao exílio de vários artistas e intelectuais brasileiros, como o poeta e crítico Ferreira Gullar, o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa e os compositores Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, entre outros. |